Santuário Arquidiocesano

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Domingo
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Artigo de dom walmor

A mulher na voz da Igreja

Diante das alarmantes estatísticas de feminicídio e outras violências contra as mulheres no Brasil, é importante ecoar sempre mais as vozes que buscam superar essa vergonhosa realidade. De modo especial no contexto do Dia Internacional da Mulher, a Igreja Católica amplia a sua própria voz para exaltar a beleza da dignidade de cada mulher, investindo sempre mais para que a sociedade não tolere as agressões cotidianamente registradas: a singularidade das mulheres, de sua missão na sociedade, não pode ser atingida por violências e extermínios. As vidas e as dignidades feridas vitimam as mulheres e toda a sociedade, pois as mulheres guardam dons capazes de ajudar o mundo a sair da decadência. No cristianismo, a mulher tem um estatuto especial de dignidade: é destinada a fazer parte de sua estrutura viva e transformadora. As possibilidades de conquista de um novo tempo, oferecidas pela singularidade feminina, ainda precisam ser adequadamente reconhecidas, para que haja sempre mais respeito às mulheres e seja possível construir nova realidade.

Nesse contexto contaminado por atos de violência e desrespeito às mulheres, ignora-se a fundamental contribuição feminina para a família, instituições variadas e toda a sociedade. Pela voz do apóstolo Paulo, escrevendo aos Gálatas, é preciso, pois, escutar a voz da Igreja, que proclama: “Ao chegar à plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher”. A mulher encontra-se, pois no coração do evento salvífico. Homem e mulher alicerçam-se na mesma pedra angular. Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus. Por isso, a vocação dialogal é constitutiva da condição de cada homem e mulher, possibilitando a ambos alcançar crescimento e bem exercer a missão de reger o mundo. Qualquer comprometimento dessa dimensão dialogal entre homem e mulher gera perdas irreparáveis, configurando preconceitos, discriminações e exclusões autoritárias, segregacionistas.

Na antropologia bíblica, a mulher é essencial também na constituição da identidade de cada homem. Homem e mulher são, pois, igualmente dignos, imagem e semelhança de Deus, ao mesmo tempo que expressam uma unidade na comunidade humana, sinal de comunhão interpessoal. Na unidade dos dois, ensina a Igreja, o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir um ao lado do outro, ou juntos, mas também a existir reciprocamente um para o outro. Em razão do pecado, veio a perturbação da relação original entre o homem e a mulher, desvirtuando a grandeza e a importância de cada um. O pecado que contamina a humanidade configura uma ruptura e uma constante ameaça à unidade entre os dois. Não se pode, pois, admitir relação de domínio entre homem e mulher, por comprometer a estabilidade da igualdade fundamental. Ferir essa igualdade é banir a mulher da sociedade.

Atenção seja dada quando, na atualidade, são realizadas deliberações sobre os direitos da mulher, no amplo contexto dos direitos humanos. Trata-se de horizonte que não pode permitir relativizações, para não agravar ainda mais os cenários de violência que ameaçam as mulheres, objetificando-as para consumo, manipulando-as. Há, pois, de se considerar sempre e melhor a feminilidade, a sua grandeza, reconhecendo a sua essencialidade para o bem de toda civilização. Nesse sentido, a sociedade deve investir em caminhos para que a mulher seja cada vez mais protagonista, buscando vencer o machismo. Assim, equilibrar a relação entre homens e mulheres no contexto social, para adequadamente articular singularidades, curar patologias que produzem violências.

O respeito à dignidade da mulher cria a oportunidade para uma nova ordem alicerçada no amor. Trata-se de uma urgência, considerados os muitos descompassos da contemporaneidade. A ordem do amor tem na mulher um especial protagonismo, indispensável nas reconstruções civilizatórias. A mulher, portanto, desempenha um papel singular que não pode ser destruído, violentado ou tratado com indiferença. A feminilidade tem competências singulares na prática e no ensinamento do amor. Essas competências se expressam em diferentes contextos culturais, pelas singularidades biológicas, espirituais e psíquicas de cada mulher. A Igreja ensina que a dignidade da mulher está intimamente ligada ao amor: ao amor que ela recebe por sua feminilidade e ao amor que ela doa. As mulheres são paradigma para sustentar a grande força que gera equilíbrio na humanidade. Ecoem as vozes que buscam construir novos tempos a partir da superação de violências que as ameaçam. A sociedade possa avançar sempre no respeito à mulher, caminho para experimentar o amor e aprender a amar.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte



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