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[Artigo] O Ofício Divino: quando a Palavra de Deus reza em nós (2)- Padre Márcio Pimentel, Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de BH

Uma das riquezas da Liturgia das Horas no que se refere aos Salmos é o fato de podermos identificar a nossa humanidade ferida com a humanidade redimida e redentora de Cristo. “Quem salmodia abre o coração aos sentimentos que brotam dos salmos de acordo com o gênero literário de cada um, gênero de lamentação, confiança e ação de graças (…)” (IGLH 106) e com isso expõe diante de Deus a própria condição humana para que seja transformada à luz do Verbo crucificado e ressuscitado. Mas, atenção: no Ofício Divino, “quem salmodia não o faz tanto em seu próprio nome, como em nome de todo o Corpo de Cristo, e ainda na pessoa mesma do próprio Cristo” (IGLH 108). Este é um exercício pascal, pois como dizia São Bento: “a fraqueza humana, ferida pelo amor de si própria, é curada na medida do amor com que a mente acompanha a voz de quem salmodia” (IGLH 108).

Ao rezar o Ofício Divino nós adentramos no coração da Revelação que é o diálogo permanente entre as pessoas divinas que transborda, faz surgir o mundo e nele o ser humano. Assim como pensavam os padres da Igreja, quando cantamos os salmos ouvimos o “Cristo clamando ao Pai, ou o Pai Falando ao Filho” (IGLH 109). Mais que isso, tomamos parte neste diálogo, de modo que a filiação adotiva ser manifeste e fortaleça. A Liturgia é uma grande contribuição – a mais importante, até – para que possamos ir nos tornando o tipo de pessoa que Jesus é. Assim como o Filho tinha ao Pai como modelo, e em tudo se deixava orientar por seu Espírito, nós o temos como orientação fundamental de nossa existência. O Espírito que o Pai lhe doa é compartilhado conosco para que sejamos como ele: amorosos, compassivos, misericordiosos, não-violentos, humildes, tranquilos7. Em Fl 2,5 nós encontramos esta mesma concepção: “tenham em vós os mesmos sentimentos/mentalidade/conduta de Cristo Jesus”.

Por fim, podemos sustentar com os padres conciliares, que o Ofício Divino possui um grande valor pastoral (SC 86). Não se trata apenas de uma obrigação à qual estamos sujeitos por se tratar da oração oficial da Igreja ou de uma necessidade espiritual correlata à condição de filhos e filhas adotivos. Mais do que isso, “se trata de abrir espaço para o Senhor, à sua Palavra e à sua graça, para poder edificar com Ele uma comunidade fraterna que viva dele e se torne testemunha”8. Afinal,

 

Eterno Rei e Senhor, Filho do Pai muito amado

à vossa imagem plasmastes, Adão do barro formado. (…)

Unido a nós como homem, vós nos unistes a Deus.

Pelo Batismo, nos destes herdar o Reino dos Céus.

Sede, Jesus, para nós, gozo pascal, honra e glória.

Os que nasceram da graça, uni à vossa vitória. (…)9


4 Os lábios precisam ser abertos para que o ser humano ofereça a Deus palavras. Isso porque, depois da destruição do segundo Templo, o povo de Israel viu-se empobrecido por não poder apresentar ao Senhor seus sacrifícios. Pranteou a Deus por ter perdido a mediação sacrifical e corrigir suas transgressões. Diante deste sofrimento, conta-se que Deus lhes disse: “Quero palavras” (…) “tragam-me a si próprios”. Cf. KIZNET, Rabino Yitzchok. ALKEN, Lisa. A parte da prece judaica. São Paulo: Maayanot, 2008, p. 34-35.

5 Cf. DI SANTE, Carmine. Liturgia Judaica. Fontes, estrutura, orações e festas. São Paulo: 2010, p. 136-137.

6 PERROT, C. La lecture de la Bible apud DI SANTE, Liturgia judaica, p. 137.

7 CF. SOLOMON, Lewis D. Jesus, um profeta do judaísmo universalista. In: BRUTEAU, Jesus segundo o judaísmo, p. 202-210.

8 GIRARDI, Luigi. Sacrosanctum Concilium (commento). In: GIRARDI, Luigi. GRILLO, Andrea. VIGANÒ. Sacrosanctum Concilium – Inter mirifica. Bologna: EDB, 2014, p. 226. (Commentario ai documenti dei Vaticano II).

9 Hino das Vésperas para o Tempo Pascal.

 

 

 

 

 

 

Vicente

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